O “demônio brasileiro”
Certa vez, o mestre Alexandre Teixeira acompanhava João Souza em uma Copa do Mundo e viu dois italianos comentando as poules da competição. Um deles, perguntado sobre quem estava em sua chave, respondeu com cara de desânimo: Il dimonio braziliano (o demônio brasileiro), se referindo ao João.
Antes de amedrontar grandes esgrimistas em etapas do circuito mundial, João Antônio de Albuquerque e Souza era apenas um menino entediado esperando o fim das aulas de sua mãe na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em Porto Alegre. Sem muito o que fazer, João resolveu tentar a esgrima para passar o tempo. Não poderia ter funcionado melhor.
Pouco depois, João se transferiu para o Grêmio Náutico União, investindo de vez no esporte e entrando para a vida competitiva. Em sua época de infantil, não era um atleta de grande destaque, conseguindo como resultado máximo o quarto lugar do florete masculino no Campeonato Brasileiro da categoria, em 1996.
O primeiro título importante viria dois anos depois, com a vitória no Campeonato Brasileiro Pré-Cadete de 1998, vencendo Heitor Shimbo na final. A partir daí, João se consolidou como destaque nas categorias de base, sempre fazendo parte de equipes brasileiras de sua categoria.
Entre 2000 e 2001, ainda na categoria juvenil, se consolidou como uma força também nas competições nacionais adultas. Em 2000, chegou à sua primeira final no Torneio Nacional Cidade de Porto Alegre, sendo derrotado pelo experiente Roberto Lazzarini. No ano seguinte, surpreendeu a todos com o título do Campeonato Sul-Americano, batendo o consagrado argentino Leandro Marchetti na decisão. 2001 também marcou a primeira participação de João em campeonatos mundiais, fazendo parte da delegação brasileira em Nimes, na França.
O biênio 2002-2003 viu nascer a rivalidade entre João e Marcos Cardoso, atleta do Esporte Clube Pinheiros, no cenário do florete masculino. Nessa época, Cardoso chegou a impressionantes 15 títulos nacionais consecutivos, vários deles conquistados em finais contra João. Em 2003, finalmente João quebrou a seqüência batendo seu rival na decisão do Torneio Nacional Cidade de Curitiba e vencendo sua primeira competição nacional adulta. Ainda no mesmo ano, venceu o Campeonato Brasileiro livre pela primeira vez. No cenário internacional, João pôde comemorar sua primeira participação em Jogos Pan-Americanos, em Santo Domingo, na República Dominicana.
Dois anos depois, em 2005, veio um dos principais títulos da trajetória de João. Em mais uma final contra Marcos Cardoso, ele venceu o Campeonato Pan-Americano em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia. Na época, João conciliava as aulas na faculdade de direito que cursava, o estágio em um escritório de advocacia e as três horas diárias de treinamento. Empolgado, resolveu deixar o estágio de lado e dobrou sua carga de treinos.
O objetivo de João era uma medalha nos Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro, em 2007. Para isso, conseguiu recursos do clube, da Confederação Brasileira de Esgrima e completou com dinheiro do próprio bolso para rodar o mundo disputando o circuito mundial. Chegou a resultados expressivos e atingiu até a 17a colocação no ranking de florete masculino da Federação Internacional de Esgrima, posição nunca antes alcançada por um brasileiro.
Toda a preparação culminou com a medalha de bronze nos Jogos Pan-Americanos do Rio. João quebrou um tabu de 32 anos sem medalhas da esgrima brasileira nos Jogos, chegando a um dos feitos mais marcantes de sua trajetória. Incentivado pela grande conquista, João passou a focar suas atenções na vaga olímpica para os Jogos de Pequim.
Mais uma vez, a preparação contou com etapas do circuito mundial e até um trabalho de adaptação à altitude de Queretaro, no México, local onde se realizaria o Torneio Pré-Olímpico. Mesmo com a dificuldade de ter que ficar entre os dois melhores de uma competição que reunia esgrimistas de todas as américas, João bateu na semifinal o experiente venezuelano Carlos Rodriguez, vice-campeão mundial juvenil em 1997, para garantir o carimbo no seu passaporte para Pequim. De quebra, venceu a decisão do torneio, sagrando-se campeão do florete masculino no Pré-Olímpico.
Exemplo de dedicação, disciplina e sucesso na carreira de um esgrimista, João Souza agora se prepara para mais um ciclo olímpico, com o foco na participação em mais uma Olimpíada em 2012, na cidade de Londres. Se depender de sua vontade inesgotável nos treinos e competições, o “demônio brasileiro” mais uma vez estará desfilando com a delegação nacional na cerimônia de abertura de mais uma edição dos Jogos Olímpicos.
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